
Itamargarethe Corrêa Lima – Jornalista, radialista e advogada. Pós-graduada em Direito Tributário, Direito Penal e Processo Penal. Pós-graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.
Antes de iniciar este novo artigo, peço-lhe licença para uma breve palavra. Após um período de ausência, volto a este espaço com o sentimento de gratidão por todos que, durante esse tempo, enviaram mensagens, fizeram perguntas e demonstraram carinho pelos artigos publicados ao longo dessa caminhada.
A rotina profissional, somada às inúmeras atividades do dia a dia, acabou impondo um intervalo maior do que o desejado. A esperança é que esse reencontro aconteça, daqui em diante, em espaços de tempo menores.
Afinal, escrever sobre saúde mental nunca foi apenas um exercício de opinião, mas, sim, uma oportunidade de refletir, aprender e, sobretudo, compartilhar inquietações sobre um tema que atinge milhões de pessoas, muitas vezes de forma silenciosa.
Ao longo dos últimos anos, esta série buscou compreender a depressão sob diferentes perspectivas. Falou sobre suas causas, efeitos, caminhos do tratamento, importância da espiritualidade, gratidão, coletividade e amor ao próximo.

Entretanto, quanto mais estudo o tema, percebo que ainda existem aspectos pouco discutidos, quase sempre invisíveis aos olhos da sociedade. É justamente por essa razão que nasce uma nova etapa dessa caminhada.
A partir de hoje, os artigos passam a integrar a série “As Faces Ocultas da Depressão”, dedicada a refletir sobre as causas invisíveis do sofrimento humano, aquelas que muitas vezes não aparecem nos consultórios, não são percebidas pela própria família e permanecem escondidas atrás de vidas aparentemente perfeitas.
Neste primeiro episódio, será abordada a chamada depressão da alma bem-sucedida. Você imagina o que seja? Existe uma crença profundamente enraizada na sociedade de que o sucesso conduz, inevitavelmente, à felicidade.
Durante anos, ensinou-se que bastaria conquistar uma profissão respeitada, estabilidade financeira, reconhecimento social, família estruturada e conforto material para que a realização pessoal fosse uma consequência natural.
A realidade, entretanto, conta uma história completamente diferente.
Os consultórios de psiquiatras e psicólogos recebem diariamente empresários, médicos, advogados, professores, juízes, políticos, artistas e profissionais das mais diversas áreas que, aos olhos da sociedade, representam exemplos de sucesso.
São pessoas admiradas, respeitadas e, muitas vezes, invejadas. Ainda assim, convivem silenciosamente com a angústia, o vazio existencial, a ansiedade e, não raras vezes, com a depressão.
Essa constatação revela uma verdade incômoda. A doença não alcança apenas quem perdeu tudo. Ela também atinge aqueles que, aparentemente, conquistaram tudo.
Talvez o maior equívoco da sociedade atual tenha sido confundir sucesso com sentido. Enquanto o primeiro pode ser medido por patrimônio, títulos, cargos ou reconhecimento público, o sentido da vida não se mede, pois nasce da consciência de que a existência possui um propósito que ultrapassa as conquistas materiais.
As redes sociais ampliaram ainda mais esse fenômeno. Nunca foi tão fácil construir uma imagem de felicidade permanente. Fotografias cuidadosamente produzidas, viagens, comemorações e demonstrações constantes de êxito passaram a compor uma vitrine onde quase não existe espaço para a dor, insegurança ou as fragilidades humanas.
Se, de um lado, aquele que observa acredita que todos estão felizes, do outro, quem sofre passa a acreditar ser a única pessoa incapaz de alcançar essa felicidade. E, dessa comparação permanente, nasce um sofrimento silencioso.
A depressão da alma bem-sucedida surge exatamente nesse ponto. Ela cresce quando existe um abismo entre a pessoa que o mundo enxerga e aquela que luta diariamente para manter-se emocionalmente de pé.
Quanto maior a expectativa de que alguém seja forte, mais difícil costuma ser admitir que precisa de ajuda. Muitos silenciam por vergonha, medo do julgamento ou receio de decepcionar aqueles que sempre os enxergaram como exemplos de equilíbrio.
É importante compreender que dinheiro, reconhecimento profissional e estabilidade representam conquistas legítimas e importantes. Contudo, nenhuma delas substitui vínculos afetivos verdadeiros, propósito existencial, espiritualidade, descanso emocional e relações humanas autênticas.
Isso não significa reduzir a doença a uma questão filosófica ou espiritual. Essa enfermidade é uma patologia séria, reconhecida pela medicina, que exige diagnóstico e tratamento adequados.
O que se pretende destacar é que, muitas vezes, as circunstâncias da vida contemporânea favorecem um adoecimento silencioso, justamente porque ensinam as pessoas a construir uma aparência de felicidade enquanto escondem suas dores mais profundas.
Talvez uma das maiores tragédias do nosso tempo seja esta. Nunca tantas pessoas pareceram tão realizadas e, ao mesmo tempo, carregaram um sofrimento que ninguém consegue enxergar. Afinal, nem toda dor faz barulho. Muitas delas se escondem atrás de sorrisos, cargos, conquistas e de uma rotina que, para quem observa de fora, parece perfeita.
É justamente por isso que reconhecer essas faces invisíveis da depressão tornou-se um dos maiores desafios da sociedade contemporânea. Ao longo desta leitura, será que alguém lhe veio à mente? Um amigo, parente, colega de profissão ou até mesmo você? Se isso aconteceu, é porque a depressão da alma bem-sucedida está muito mais próxima de nós do que imaginamos. Por hoje, ficamos por aqui. Até breve!!


