Flávio Bolsonaro diz que dinheiro pago por Vorcaro para filme foi para fundo de advogado do irmão Eduardo

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disse nesta quinta-feira (14) que recursos pagos pelo banqueiro Daniel Vorcaro para bancar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, passaram por um fundo administrado nos Estados Unidos pelo advogado de seu irmão, Eduardo Bolsonaro.
Flávio negou, porém, que o dinheiro tenha sido usado para bancar despesas de Eduardo, que vive nos EUA desde o ano passado e responde a processo por tentar interferir na Justiça brasileira.
Em entrevista ao Mais, da GloboNews, o pré-candidato à Presidência da República pelo PL afirmou que o dinheiro foi “integralmente” direcionado à produção do filme.
“Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados nesse fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, afirmou.
Segundo reportagem publicada no site Intercept Brasil na quarta-feira (13), os recursos pagos por Vorcaro passaram pela empresa Entre Investimentos e Participações e pelo fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas (EUA) e representado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
Vorcaro está preso em Brasília e é investigado por fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master e uma rede de fundos ligados a organizações criminosas. Segundo o Intercept, o banqueiro pagou R$ 61 milhões para financiar o filme sobre Bolsonaro.
Flávio indicou que considera natural que o advogado que cuidou do processo migratório do irmão nos EUA tenha participado da operação de financiamento do filme.
“Para colocar de pé uma estrutura dessa, criar um fundo, cuidar das questões legais, de burocracia, você tem que contratar um advogado, um advogado de confiança do Eduardo, alguém que cuidou de todo o seu processo de green card. Está dentro do contexto do filme. O advogado é gestor do fundo também”, disse o senador.
Flávio cita contrato de confidencialidade
Em relação às mensagens que trocava com Vorcaro para pedir dinheiro, reveladas pelo Intercept, Flávio disse que seu papel era buscar investidores para o projeto.
“Minha participação foi buscar investidores para colocar de pé um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, meu pai, uma pessoa que está passando por uma grande perseguição e foi vítima de uma farsa. E é meu sonho fazer com que a história de vida dele, que é emocionante, seja uma homenagem em forma de filme”.
O senador disse ainda que omitiu publicamente sua relação com o banqueiro por causa de um contrato de confidencialidade. Na quarta, horas antes de o Intercept revelar a troca de mensagens, o senador foi questionado sobre isso por jornalistas em Brasília e afirmou que seria mentira. Depois que o caso veio à tona, ele admitiu a relação com o banqueiro e negou irregularidades.
“Eu não falei que era mentira. Tenho contrato de confidencialidade. Estou falando disso agora porque veio à tona, não tem mais como negar”, disse.
“Se eu falo assim ‘eu conheço o Vorcaro’, a pergunta seguinte seria ‘qual a sua relação com ele?’ Eu ia ter que falar do filme. Foi só por isso que eu me eximi”, afirmou.

Segundo o senador, o contato com Vorcaro era “exclusivamente” para tratar do projeto “Dark Horse”. “Qualquer mensagem que apareça daqui para frente, qualquer mensagem que já apareceu, o meu contato, os meus contatos, sejam por telefone ou pessoalmente com ele, foram exclusivamente para falar do filme, uma conversa monotemática”, disse.
Flávio disse que, quando conheceu Vorcaro, em dezembro de 2024, não sabia que o banqueiro estava envolvido em atividades criminosas.
Questionado sobre termos usados nas mensagens, o senador argumentou que chamar alguém de “irmão” e “mermão” faz parte do linguajar carioca e não significa necessariamente intimidade.
“Irmão, mermão é uma expressão que a gente usa para cumprimentar, até para pedir um coco na praia. É igual guri no Rio Grande do Sul, piá no Paraná, mano em São Paulo. Não tem por que querer empurrar goela abaixo uma intimidade que não tenho.”
Áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro
Na última quarta-feira (13), o site Intercept Brasil divulgou, e a TV Globo confirmou, um áudio entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro dono do Master, Daniel Vorcaro, em que o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro aparece pedindo dinheiro para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre seu pai.
O banqueiro chegou a pagar R$ 61 milhões. Segundo informações confirmadas pela TV Globo, parte dos pagamentos determinados por Vorcaro foi feita por meio de uma empresa chamada Entre Investimentos e Participações, vinculada ao banqueiro. Segundo o site, a empresa é mencionada em mensagens trocadas sobre o tema entre Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel.
Na mensagem de áudio enviada por Flávio a Vorcaro em 8 de setembro de 2024, o senador diz entender que o banqueiro passava por um “momento dificílimo” – poucos dias antes, em 3 de setembro de 2024, a compra do Master pelo BRB havia sido rejeitada pelo Banco Central – e que ficava “sem graça” de cobrar, mas pedia uma posição de Vorcaro sobre pagamentos pendentes.
“Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso e eu fico preocupado com o efeito contrário ao que a gente sonhou pro filme”, diz o senador nas mensagens.
Muitos dos contatos envolviam ligações telefônicas e mensagens com imagens de visualização única. Em 16 de novembro, após o envio de duas dessas mensagens, Flávio diz:
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”
Vorcaro responde com uma mensagem de visualização única, ao que Flávio reage: “Amém”.
Fraudes do Master podem chegar a R$ 12 bilhões
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, está preso em Brasília, acusado de chefiar um esquema bilionário de fraudes financeiras que podem chegar a R$ 12 bilhões, segundo a Polícia Federal (PF).
Vorcaro foi preso pela primeira vez em 17 de novembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero, enquanto embarcava para Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, no Aeroporto de Guarulhos, usando um de seus aviões particulares.
A prisão foi o começo das investigações sobre uma rede que envolve fraudes bilionárias, corrupção de servidores públicos e até o uso de uma “milícia privada” para intimidar opositores.
Nesta quinta-feira (14), a PF deflagrou a sexta fase da operação. Desta vez, o alvo principal é o pai de Daniel Vorcaro, Henrique Vorcaro. Preso preventivamente em Belo Horizonte, ele é acusado de ser um dos chefes da “Turma”, grupo que realizava atividades ilícitas para o banqueiro.



