O peso da comparação!

Itamargarethe Corrêa Lima – Jornalista, radialista e advogada. Pós-graduada em Direito Tributário, Direito Penal e Processo Penal. Pós-graduanda em Direito Civil, Processo Civil e Docência do Ensino Superior.
Há um hábito tão presente na vida moderna que poucos percebem o quanto pode adoecer a mente. Não faz barulho, muito menos provoca dor física imediata e, quase sempre, é visto como algo natural. Afinal, quem nunca olhou para a realidade do outro e pensou que ela parecia mais feliz, bonita, realizada ou simplesmente melhor?
No artigo anterior, abordamos a chamada depressão da alma bem-sucedida e refletimos sobre o fato de que o sofrimento emocional não escolhe profissão, condição financeira ou posição social.

Agora, seguimos por outra face igualmente invisível da depressão, uma realidade que cresce silenciosamente em milhões de vidas e, muitas vezes, passa despercebida até por quem a vivencia.
Estamos falando do peso de transformar a caminhada do outro em parâmetro para avaliar o próprio percurso.
Muito embora comparar faça parte da experiência humana, desde os primeiros anos de vida aprende-se a falar, caminhar e descobrir o mundo por meio do convívio com aqueles que nos cercam.
Desse contato também nascem referências, inspirações e novos projetos. O problema começa quando essa convivência deixa de impulsionar o crescimento e passa a determinar o valor que atribuímos a nós mesmos.
Nesse instante, quase sem perceber, a felicidade deixa de ser construída a partir da história de cada um e passa a depender daquilo que acontece ao redor. Talvez nunca a humanidade tenha vivido um tempo tão propício para esse fenômeno quanto o atual.
Se, de um lado, as redes sociais encurtaram distâncias, democratizaram a informação e permitiram que famílias separadas permanecessem conectadas, não seria justo ignorar seus inúmeros benefícios.
Do outro, também criaram uma vitrine permanente da existência humana, onde quase tudo é “perfeito”. Os sorrisos são constantes, viagens inesquecíveis, relacionamentos aparentam ser inabaláveis e o sucesso profissional surge como se fosse consequência natural da vida.
O que raramente aparece são crises conjugais, medo, insegurança, noites sem dormir, conflitos familiares, luto, dificuldades financeiras, ansiedade e lágrimas derramadas quando as câmeras estão desligadas. A realidade continua existindo, embora quase nunca seja publicada.
O problema é que o cérebro nem sempre consegue fazer essa distinção. Quando se passa horas observando apenas os melhores momentos de quem está ao redor, começa-se a acreditar que somente a nossa vida é marcada por dificuldades.
É uma comparação injusta, porque coloca os bastidores de uma existência diante do palco cuidadosamente iluminado de outra. Aos poucos, a mente passa a acreditar que felicidade é sempre um privilégio alheio, enquanto o seu filme parece resumido a dificuldades, fracassos e insuficiências.
Não demora para que surjam perguntas silenciosas, mas profundamente destrutivas. Por que a minha vida não avança? O que há de errado comigo? Por que todos parecem conquistar o que eu nunca consigo?
Esses questionamentos, quando alimentados diariamente, corroem a autoestima. A pessoa deixa de reconhecer a sua história, passa a ignorar as conquistas já alcançadas e enxerga apenas aquilo que acredita faltar.
O mais curioso é que quase nunca existe uma comparação justa. Ninguém conhece por inteiro a realidade do outro. Admira-se o resultado, mas raramente se conhece o caminho percorrido para alcançá-lo.
Vê-se a fotografia da viagem, mas não as dívidas contraídas. Inveja-se o cargo, mas não os anos de renúncia. Deseja-se o relacionamento aparentemente perfeito, mas desconhecem-se as crises enfrentadas para preservá-lo.
Cada existência carrega desafios, dores e cicatrizes que dificilmente aparecem em fotografias ou publicações. Ainda assim, insistimos em comparar uma realidade conhecida por inteiro com outra da qual enxergamos apenas os melhores momentos.
Talvez por isso tantas pessoas vivam aprisionadas na sensação permanente de insuficiência. Não porque lhes falte capacidade, inteligência ou oportunidades, mas porque passaram a medir o próprio valor com a régua da vida alheia.
Quando a comparação se transforma em hábito, ela deixa de ser um simples comportamento e passa a influenciar a maneira como nos enxergamos. Aos poucos, instala-se a falsa convicção de que nunca será suficiente, independentemente do que conquiste.
É justamente nesse terreno que muitas formas silenciosas de sofrimento emocional começam a se desenvolver. Nem sempre a tristeza nasce de grandes perdas.
Às vezes, ela surge da incapacidade de reconhecer o próprio valor porque os olhos permanecem voltados apenas para aquilo que pertence aos outros. É importante compreender que o problema nunca foi admirar quem inspira, aprender com bons exemplos ou celebrar a conquista de outras pessoas.
O que adoece é transformar a vida alheia em medida para julgar a própria existência. Cada ser humano percorre um caminho singular.
Há histórias que exigem mais tempo, outras enfrentam obstáculos diferentes e algumas carregam dores invisíveis que jamais serão conhecidas por quem observa apenas o resultado.
Enquanto insistirmos em medir nossa felicidade pela do vizinho, sempre haverá alguém aparentemente mais bonito, rico, inteligente ou mais realizado. Essa corrida simplesmente não tem linha de chegada.
A verdadeira liberdade começa quando compreendemos que a comparação nunca será capaz de revelar o verdadeiro valor. Ela apenas distorce a maneira como enxergamos quem somos e tudo aquilo que já construímos.
A depressão nem sempre chega por meio de acontecimentos extraordinários. Muitas vezes, instala-se silenciosamente no coração de quem perdeu a capacidade de reconhecer os seus méritos porque passou tempo demais a espiar o do outro.
No nosso próximo encontro, seguiremos conhecendo mais uma face igualmente silenciosa da depressão, a chamada culpa que nunca descansa, um sentimento capaz de aprisionar pessoas corretas, responsáveis e dedicadas em uma prisão construída pela própria consciência. Por hoje, ficamos por aqui. Até a próxima.



